Bestiário

Gabriel Nascimento

Aprendiz de tipógrafo

O que é um Bestiário e qual a sua pertinência ainda hoje? Como esse termo está distante para algumas pessoas, cabe aqui uma breve explicação. O registro mais antigo de um livro com a estrutura de um bestiário data do século III ou IV. O Fisiólogo - ou Physiologus (lembrem-se dessa palavra) em latim - é um manuscrito grego cristão, feito em Alexandria de autoria desconhecida. Ele consistia de descrições de animais existentes, fantásticos, flora, adicionando a essa descrição, uma mensagem moral cristã. Bem, esse manuscrito foi sendo copiado e traduzido para o Latim, Armênio, Etíope, Siríaco (bom para reforçar que a cultura de livros não é algo exclusivo da Europa). Alguns desses manuscritos, como o Fisiólogo de Berna Codex Bongarsianus 318, foram ilustrados (dá-se o nome de iluminados) e marcam essa frutífera relação entre texto e imagem já no século IX.


Passadas as informações que poderiam ser facilmente acessadas em sites quaisquer, vamos ao mais interessante. Os bestiários não são um livro de ciências naturais, com todo cartesianismo e taxonomia que estamos acostumados. Eles são obras de exaltação cristã onde os animais servem de alegorias para a obra divina. Os registros de bestiários nos dizem muito sobre as ideias de mundo que essas pessoas tinham e como elas as projetavam sobre as “bestas”, conhecidas ou não. O clássico Bestiário de Aberdeen (século XIII), por exemplo, pinta uma cena com abutres que, mesmo com mínimos conhecimentos de ornitologia, os responsáveis pelo desenho nunca pousaram um olho sequer em um abutre (para não falar dos leões). Mas isso não é em nada depreciativo, pois só mesmo limitações não permitem algumas pessoas enxergar nessas representações algo além de memes.


Mas não estamos na Idade Média (nomenclatura igualmente limitada). E eis aqui um bestiário. E aqui se tem um compêndio de uma nova cultura visual centrada em Tolkien, calcada nos seus livros, ilustrações, desenhos de terceiros, edições especiais, filmes, jogos e o que mais nosso mercado de cultura pop puder pensar. Mas não é só isso que torna um bestiário de criaturas da Terra Média algo pertinente. A relação está tão enraizada na gênesis do pensamento de Tolkien que não acredito ser apenas coincidência a caneta usada para escrever, em 1927, o poema Adventures in Unnatural History and Medieval Metres, being the Freaks of Fisiologus se chamasse Fisiologus (olha aqui de novo, a origem dos bestiários).



Codex Bongarsianus 318

Adventures in Unnatural History and Medieval Metres, being the Freaks of Fisiologus

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